2005-01-08

 

MARKETING POLÍTICO (I)


IMAGEM – SONDAGEM – SACANAGEM (Manuel Alegre)

Aproximando-se mais um período de campanha eleitoral, talvez valha a pena uma reflexão sobre o Marketing Político. Proponho apenas, para já, algumas achegas para início de conversa, esperando pelas sempre importantes e enriquecedoras contribuições dos leitores do Abnegado.
Escolhi a frase de Manuel Alegre pois entendo que servem de excelente moto para esta reflexão.

Nas eleições legislativas o mais importante é o projecto que cada partido apresenta corporizado no Programa de Governo, o Marketing deveria preocupar-se com a sua promoção e explicação. Não é isso que acontece.
Sob o rótulo do Marketing político, assiste-se à fulanização da campanha em torno do líder do partido, recorrendo-se a técnicas vetustas e ultrapassadas.
As campanhas estão fortemente dependentes da sua repercussão na comunicação social, sobretudo na televisão. Para isso procura-se basear a comunicação em frases curtas de eco garantido nos telejornais. Acerta-se o rumo das promessas e das frases em função dos estudos de opinião, procurando saber – em tempo real - como está a passar a mensagem.
Programa de Governo? Nada.
Organizam-se voltas a Portugal intermináveis obrigando os candidatos a visitar os pontos estratégicos onde estão pessoas “que apoiam muito o partido”. Feiras e praças. Almoços e jantares. Abraços e beijinhos, braços levantados em festa, o “V” de vitória exibido com orgulho. Comícios, abrilhantados por estrelas da música “pimba”, autocarros em excursões de militantes vindos sabe Deus de onde, bandeirinhas de plástico agitadas de acordo com a coreografia orientada pelos animadores de serviço. Breves momentos para declarações, frases curtas, promessas e um mobilizador “vamos ganhar”.
Programa de Governo? Nada.
País “inundado” com “outdoors”, cartazes, pendentes, “slogans” descorados (quando não tontos). Que tipo de impacto poderão ter?
Programa de Governo? Nada.
Oferta de aventalinhos, esferográficas, isqueiros, t-shirts e outra fancaria. Distribuem-se brochuras com ideias vagas e repetição gráfica de promessas e “slogans”.
Programa de Governo? Nada.
Tempos de Antena: várias caras conhecidas garantindo estar com o partido. Imagens de rua com “populares”afiançando estar ali o líder de todos os tempos. Música épica, o candidato com velhinhos, beijando crianças, acompanhado de nomes “sonantes”.
Programa de Governo? Nada.
Debate na televisão: Preocupação com o fatinho azul escuro (imagem de responsabilidade, credibilidade), camisa clara sem riscas (para evitar o efeito de movimento que a televisão de baixa definição confere), gravata lisa (para não desviar a atenção), o olhar directo para a câmara (para ser mais convincente e parecer mais sincero), sorriso (para expressar simpatia), frases vagas e simples (para passar melhor a mensagem – seja lá qual ela for).
Programa de Governo? Nada.
Tal como estão, as campanhas eleitorais não permitem distinguir entre o trigo e o joio, não esclarecem, promovem a demagogia, o populismo e proporcionam condições para que personalidades sem capacidade possam projectar uma ideia diferente.
Seria bom que a campanha se apoiasse, por exemplo, em entrevistas de fundo com entrevistadores especializados em diversas áreas que permitissem aos responsáveis dos partidos explicar e desenvolver as suas propostas e o seu projecto.
(Continua…)

P.S. Sobre os cartazes do PSD vale a pena ler este excelente texto de Carlos Manuel Castro no Tugir e esta montagem genial no Ideias em desalinho.

Comentários:
Pressinto que desta vez o povo vai dar fraca resposta no carrocel da campanha eleitoral. À medida que os ciclos se encurtam e a vida económica e social do país se degrada, o povo perde entusiasmo para engrossar comícios, e só com cançonetas de moçoilas de umbigo ao léu e muitas febras e coiratos acompanhar lá vai. Os líderes lá se esganiçam na demagogia, como podem, mas a convicção de uns e de outros diminui de ano para ano. Ai Portugal, Portugal...hoje, és outra vez nevoeiro, parafraseando o nosso distinto Pessoa.
 
estas tolinhas de oiro julgam que podem fazer propaganda barata tipo detergente
 
Obrigada, Luís, pela visita e pelas palavras! Quanto às questões que põe, penso que tudo começou, quando o suporte visual das campanhas eleitorais, há uns anos, se fulanizou. Os eleitores passaram a ser encandeados com caras, carinhas, caretas e passaram a discutir pessoas, em vez de ideias. Até por isto os políticos são responsáveis. Será reversível?
DespenteadaMental
 
Por isso é que voto... ao lado!
Um voto de contestação.
E perante o que nos querem dar(os partidos do arco constitucional) só votando ao lado poderei dizer que não os quero.
 
Conhece o 'blog' Albardeiro (http://albardeiro.blogs.sapo.pt/)?... Vale a pena!
Abraço,
DespenteadaMental
 
Neste nosso Mundo(afinal, não é apenas em Portugal) está tudo ao contrário: os economistas mandam na política e os marketeiros (expressão brasileira) mandam nuns e noutros. Quem será que anda a mandar no PS? A que propósito, Sócrates gasta o seu tempo a atacar um cadáver político - o ex-presidente da Figueira da Foz?
Já, agora, Meu caro Luís Sequeira, agradeço-lhe o comentário ao meu post "Rosa enjeitada". Para contraponto à nossa troca de pontos de vista, o dr. Miguel Cadilhe diz algumas coisas interessantes do JN de hoje.
Um abraço.
http://a-toupeira.blospot.com
 
Meu caro Luís, o título: MARKETING POLÍTICO diz tudo: "marketing".
Não confundir o marketing com as ideias, com o sumo da coisa, com o programa eleitoral. O "marketing" entra na "campanha" eleitoral, exactamente com a sua função: fazer uma campanha de "marketing", isto é, vender uma marca, neste caso, um partido, neste caso, um candidato. O papel do "marketing" numa campanha é essencial. Não me parece que este seja de criticar, no entanto, já é de criticar que um partido, um candidato, uma campanha exista, apenas, pelo marketing. Como certamente perceberás, estamos a falar de duas coisas diferentes que podem e devem coexistir. Em situação alguma, o "marketing" deveria "esconder" a ideologia, as ideias, as medidas, enfim, o programa político. Se isto acontece, ou não, é outra questão, para outro comentário. Um grande abraço.
 
Se, em termos simplistas, o Marketing é a técnica de levar as pessoas a adquirir aquilo que não necessitam, poderemos extrapolar para a ideia de Marketing politico ser a "arte" de levar as pessoas a votar em quem, à partida, nada lhes diz.
Posso enganar-me, mas estou convencido que os "truques e os tiques" evidenciados (e bem) no "post", já não resultam com tanta eficácia, porque grande parte do eleitorado deixou de estar comprador de novidades...
 
Luís, o 'blog' Albardeiro, encontrei-o, há dias, e achei-o interessante. Tendo em conta os 'Desassombramentos', pensei que lhe interessaria, por isso o sugeri.
Abraço,
DespenteadaMental
 
Pois é,caro Luis Sequeira,programa de governo...nada!
Mas não se preocupe que um dia destes não vão faltar!Só que espremidos...nada!
 
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