2005-01-14

 

MARKETING POLÍTICO (IV)

A comunicação social é uma presença incontornável na definição de qualquer estratégia de marketing político. A sua influência (sobretudo da televisão) justifica que lhe seja votada uma atenção especial por parte dos responsáveis políticos. Contudo, esta relação desigual implica, as mais das vezes, uma tendencial subserviência por parte dos políticos.
Num país pequeno como o nosso, movendo-se em circulos de muito reduzida dimensão, muitos dos intervenientes (jornalistas, políticos, responsáveis pelos meios de comunicação social) acabam por se conhecer entre si e estabelecer cumplicidades ou gerir pequenos e grandes ódios. Muitas “notícias”, muitas projecções (ou ataques) de personalidades, muitos convites para “comentadores”, resultam destes estados de alma.
Alguns jornalistas apresentam como mais-valia um naipe de “fontes” que alimentam, com um ou outro encómio, promovendo as suas carreiras para que a qualidade da “fonte”, e logo da informação cedida, seja tendencialmente maior - mais tarde a promoção de uma das “fontes” a um cargo de destaque poderá valer um sempre agradável lugar de “assessoria”. De resto, o trânsito que se verifica entre as redacções e os gabinetes de assessoria do poder político (e posterior regresso aos meios de comunicação social), traz uma achega mais para o ruido de fundo e desinformação.
Os orgãos de comunicação social acabam também por ser palcos de guerras intestinas dentro dos partidos ou do governo, recebendo, na volta do correio, informação comprometedora para o colega que se intrometeu no caminho.
Entretanto, surgiram empresas especializadas no aproveitamento deste mundo complexo, gerindo e orientando os políticos na arte de “convencer” os “media” e “vendendo” o(s) seu(s) candidato(s). Apresentam-se com o pomposo nome de “agências de comunicação” e são já incontornáveis para qualquer partido.
Estas agências acabam por se tornar as responsáveis maiores pela relação dos partidos políticos com a comunicação social, logo, tornam-se os grandes responsáveis pelo marketing político. Aplicando receitas genéricas, uniformizam, progressivamente, os candidatos à força de aplicarem todas as mesmas receitas.
Os protagonistas políticos são escolhidos e promovidos em função da sua telegenia (passam bem na televisão), implicando que a razão maior da sua escolha seja tendencialmente menos as capacidades, para ser cada vez mais a imagem.
Tudo gira em torno da forma como se “passa” na TV. Criam-se oportunidades de noticia, almoços e jantares de dimensão épica, numa espécie de atestado pantagruélico de competência. Arregimentam-se os meninos e meninas das “jotas” para “enfeitar” (em permanência) a campanha e dar um ar mais jovem e atractivo.
O debate e cobertura da campanha ficam reduzidos ao espectáculo (aquilo que verdadeiramente interessa às televisões, para conservar audiências), procuram-se as imagens “insólitas” privilegiando-se os lapsos, as “gaffes”, os embaraços.
Ocupando um espaço público limitado - logo com responsabilidades acrescidas - as televisões (sobretudo estas) evitam a promoção de esclarecimentos sobre os projectos políticos das diferentes forças.
A política e os políticos deixaram-se enredar e diminuir nesta relação doentia.
Não faltará muito tempo para que cada emissora de televisão escolha e apoie o “seu” candidato, à semelhança do que já fizeram nas eleições para a presidência do Benfica há alguns anos, dando assim o seu precioso contributo para a transformação da política num mero espectáculo.
(continua)

Comentários:
Como eu gostaria que o que diz fosse a verdade de um qualquer país remoto, que não o nosso!
Mas, caro Luis Sequeira, também convém não esquecer que os muitos verdadeiros jornalistas,daqueles a quem devemos muito do nosso orgulho de povo livre e vertical, saem também trocidados dessa promíscua relação que arrasta alguns dos seus para a pouco honrosa posição de meros "cavalos de troia" das forças já instaladas; quantas vezes apenas a troco de protagonismo fácil.
 
Apesar de, não só por falta de preparação, mas também por ter atingido o limite da paciência, já ter dificuldade em falar "à séria" da bambochata que tem sido a politica em Portugal nos últimos anos, não posso deixar de o felicitar pelo conjunto de posts que tem vindo a inserir no seu blogue, nomeadamente pelo seu nível pedagógico.
Sobre a comunicação social em si, apenas adiantaria que infelizmente, os jornalista constituem a classe profissional, na qual tem sido mais fácil recrutar os chamados idiotas úteis, que a troco de umas prebendas, vão garantindo esta promiscuidade larvar entre os politicos e os media, de que o país não consegue sair.
 
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