2005-02-25

 

CONHECIMENTO DO INFERNO* (I)

Todas as sextas-feiras cumprem o doloroso ritual de reunir as magras poupanças da semana para rumar ao centro das compras. Tomam o seu lugar na fila, abraçando os mantimentos que os terão de manter, disfarçando necessidades várias. Convivem no espaço luminoso de produtos mil com gentes de destinos outros. Fazem as contas ao cêntimo, centrando-se no estritamente necessário - o mínimo de sobrevivência, no linguajar técnico dos economistas.
A sua sobrevivência conhecem-na, é a sua única preocupação desde o dia em que perderam ambos os seus empregos. Afastam a recordação desse dia aziago como se o esquecimento pudesse apagar a realidade.
Julia e António conheceram-se na empresa a que dedicaram uma vida. Por ali construiram o seu percurso profissional em total dedicação. Adiaram, até à impossibilidade, os filhos que tinham sonhado, perdidos em cálculos do momento ideal, na certeza de um futuro mais confortável, na comodidade de uma vida menos dificil.
Tinham fugido a uma existência de miséria, procurando na grande cidade novos horizontes. A vida os levou, por caminhos diferentes, até à fábrica onde ela trabalhava como telefonista enquanto ele assumia as funções de motorista. Partilhavam as origens, falavam um ao outro de um passado familiar, sentiam um desejo de fugir à vida no campo, a única que conheciam, aquela que não queriam para si.
Construiram uma história em comum com alguns luxos que conseguiam alcançar à custa de muitos sacrificios “saia-lhes do corpo” diziam, quando explicavam as férias daquele ano, ou o novo conjunto de sofás. Não disfarçavam o orgulho quando se consideravam “remediados” em conversa com os amigos.
Na cidade criaram o seu espaço, conhecidos, amigos, uma vida.
Até ao dia em que a “sua empresa” - como lhe chamavam – fechou. Assim, sem que o esperassem, sem uma explicação - morte súbita dir-se-ia fosse a empresa um ser de carne e osso. Naquele dia ambos ficaram sem emprego, sem salário. Tinham 49 anos, novos para a reforma, tarde para uma nova vida.
Perderam anos na vã tentativa de encontrar um novo trabalho (não lhe chamavam emprego, trabalho era o que queriam). Aos poucos foram caindo num mundo novo, escuro, de vergonha. Afastaram-se dos outros, cansados do insuportavel e inutil esforço de esconder a sua miséria.
Sentem que o destino, por uma vez, não foi impiedoso: “ao menos não temos filhos” diz Júlia, num alívio doloroso.
Trazem os mantimentos em sacos de plástico com o logótipo flamejante do supermercado, atravessam o grande corredor, cruzam-se com gente em preparos para o fim-de-semana.
Não se recordam da última vez que sorriram.

*Título "roubado" ao romance de António Lobo Antunes

Comentários:
Mas tem que haver futuro para esta gente! O diagnóstico está feito, haja agora coragem para avançar.
 
Sempre haverá Antónios e Júlias em toda a parte; mas nos últimos anos quase duplicaram entre nós! Seremos capazes de inverter esta tendência?!
 
Sabe, ás vezes, quando vejo este povo unir-se por causas do exterior, causas essas pelas quais ainda bem que nos unimos, penso nos Antónios e nas Julias deste pais. Penso que há tanta gente que precisa que lhes estendam a mão. E vejo com tristeza, tantas mãos a fecharem-se.
Ás vezes as pessoas só precisam que alguem as oiça. Só precisam que alguém as entendam. E tantas, tantas vezes, trocavam a piedade de alguns, por aquela mão amiga.
Sei que este é um mundo cheio de injustiças, mas como inconformada que sou, tento-o mudar. Se cada um, cada um de nós em vez de fingir que não vê, ajudasse com um minimo que não faria diferença alguma, provávelmente não haveriam tantos Antónios e tantas Julias.
Falta-nos amar e respeitar os outros. Como homens e mulheres que tambem o são. Falta-nos o amor a este pais que é tão nosso. Só quando soubermos amar no verdadeiro sentido da palavra, amar simplesmente, sem nada esperar em troca, saberemos ajudar os outros.
Está nas mãos de cada um de nós mudar o mundo. E nada, nada fazemos para o mudar!
Achamos sempre que só acontece aos outros.
Serei sempre (sonhadora,idealista,irrealista, dizem alguns) inconformada com estas injustiças do mundo.
Não me consigo conformar, sabendo que há pessoas que dormem ao relento, que não temn o que comer.
Acho bem que o governo disponibilize verbas para ajudar o exterior, mas quando, quando começam a olhar seriamente para a miséria que há neste pais??
 
E quantos casos semelhantes a este não existem por aí?
Dá que pensar!
 
Bem, Luís. Bom Post. Depois dos excelentes "Salão de festas", eis que algo de novo começa.
 
Tem de haver uma forma de humanizar a Economia ou de lhe atenuar a brutalidade com que prescinde de pessoas válidas, ainda capazes de trabalhar,mas que deixam de o poder fazer, no mercado implacável da oferta e da procura. A mão invisível, entidade providencial, indiscutível e imaculada para os Liberais,fica muitas vezes atingida de cegueira e não se dá conta dos danos que produz. Por isso, precisamos de corrigir estas situações sociais, sem cair em aventuras demagógicas e sem ressuscitar «os amanhãs que cantam» de triste memória, que tanta gente defraudaram por esse mundo. Alguma desta gente veio até nós em busca de trabalho, mesmo precário : ucranianos, russos, romenos, búlgaros, etc.Que amarga ironia da História...
 
De facto este triste cenário por si excelentemente recriado é uma realidade em muitas das familias em Portugal, ou em outras economias em crise. Nem na maior economia do mundo esta situação está salvaguardada, que são os EUA, onde a segurança social é pura mentira. Nesse aspecto, e felizmente que assim é, nos estados europeus tem vindo a acontecer uma crescente consciencialização deste problema, fruto da sua tradição na procura incessante de maior justiça social, mas que contudo tem vindo a ser perturbada pelos interesses instalados do capital e do corporativismo. Uma solução para este problema poderá passar pelo levantamento parcial do sigilo bancário, para combater as falências fraudulentas, para a maior parte dos casos, ou então caso a falência seja legitima, os funcionários depois de devidamente indeminizados pelo seu despedimento deveriam ser reencaminhados pelo estado para funções semelhantes em empresas privadas ou, quiçá, públicas. OS grupos privados que acolherem estes empregados veriam comparticipados os salários a pagar pelo próprio Estado, ao invés de deixar as pessoas em casa a receber o rendimento mínimo. Ganhava o país em produtividade e em menor número de desempregados. Dimnuia a pobreza e a precaridade. Ganhavam os empregados pois veriam a sua vida profissional relançada. Enfim, tudo isto émuito bonito no papel, mas na prática as coisas são bem mais complicadas, caso não haja boa intenção das entidades envolvidas.

Caro Luís, como gostei muito do seu post decidi referenciá-lo no meu blogue (dataveniablog.blogspot.com). Continue a produzir obras de arte como estas.
Saudações bloguistas, João Teixeira
 
E há mais Antónios e Júlias que o que se pensa.
É triste esta vida de misérias.
 
A sua “polaroid” social é uma representação de uma pobreza envergonhada e da inabilidade de um Estado social incapaz vezes demais em lidar com dramas pessoais, decorrentes de circunstancias da vida tantas vezes imerecidas quanto brutais. A Julia e o António não merecem compaixão merecem um Estado e uma sociedade empenhados em promove-los e inseri-los profissionalmente. Não há uma “derrapagem “ na taxa do desemprego, há uma curva descendente da qual o tímido crescimento económico não sustenta uma inversão consistente dessa curva.
Vitor José
 
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