2005-05-10

 

E DEPOIS DO ADEUS (II)

Mais um dia cinzento, pensaria ao abrir a sua janela pela fresquinha. Gostava pouco dos dias cinzentos, cor estranha nem peixe, nem carne.
Cinzento - a própria palavra era angulosa, seca, cheia de espinhos, lembrando figuras baças, sem brilho, repetições entediantes de outras pouco originais criaturas. Pudesse dar uma imagem a essa coloração e convocaria um desses curiosos “clones” vindos do fundo do baú, daqueles que ajeitam os óculos em ademanes lentos e estudados, daqueles que incapazes de uma decisão, de uma opinião, se protegem com frases enigmáticas e poses graves, recordando a história (a sua história) deixando no ar uma suspeita da importância de nomes “sonantes“ que só a sua ingénua imaginação poderia criar.
Trazem agarrado o cheiro a bafio dos tempos em que o céu se vestia permanentemente de chumbo. Contam a história que julgam brilhante de simples amanuenses deslumbrados, guindados ao patamar de grandes servidores da pátria em delirantes ficções, cultivadas ao longo de gerações.
Faziam parte da equipa de minúsculos e úteis capatazes, cumpriam, diligentemente, um papel no pequeno teatro rural em que o país há muito se transformara, actores menores num jogo de sombras manipulado à distância.
Era-lhes atribuido o gozo de uma ilusão, experimentavam uma estranha felicidade quando cultivavam a distância com o “povo”, num faz-de-conta em que acreditavam, não fosse alguém derrapar numa intimidade embaraçosa, não fosse alguém colocar questões ou dúvidas coisa que desconheciam, habituados a não questionar, eles que eram filhos dilectos da máxima “a pátria não se discute”, forma outra de dizer: nada se discute, dizemo-lo nós que sabemos que o universo está em equilibrio, que sabemos que esta é a fórmula mágica da vidinha, agradeçamos todos em silêncio recatado esta benção.
Suspiram ainda pelos tempos em que julgavam brilhar o baço da sua esperteza saloia, vergados, com orgulho, ante os senhores que “lá em cima velavam por nós”. Suspiram pelos tempos em que o “silêncio era de ouro”, tempos em que o “povo” sabia de ciência certa que mandar era tão difícil que agradeciam obedecer. E esses que “lá em cima velavam por nós” a aceitarem, por uma vez, o lamento vindo daqueles que sempre desprezaram: bons tempos em que bastavam uns quantos feitores para gerir a propriedade em seu nome.
A pátria constituia, aliás, para os que “lá em cima velavam por nós” uma curiosa mistificação. Na sua acanhada visão do mundo a nação surgia como uma espécie de quinta oferecida pela providência divina a uns poucos. Olham agora a vida com o desalento de quem observa os muros destruídos de uma propriedade sua. Estranham a falta dessa construção confortável que lhes protegia os dias. Nos muros, todos os muros, encontraram sempre o seu horizonte calmo, a certeza de um universo pequenino, mas controlável, um mundo em diminutivo, em recato, defendido com a violência necessária.
Estava ainda perdido nestes pensamentos, quando se apercebeu que, entretanto, o sol havia rompido, impondo todo o seu esplendor, emprestando àquele dia uma outra cor, uma outra beleza, capaz de lhe dar um ânimo maior para enfrentar mais uma etapa.

Comentários:
"Bons tempos" esses em que era uma bênção ser "pobrezinho e honrado". Ironia qb, qualidade em largas doses. Abraço.
 
Fez-me recordar aquele "Se tu soubesses o que custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida" com que alí, por cima do quadro de ardósia, o Estado Novo me "preparava" para a vida!
Tinha eu os meus sete anitos e a mensagem cá ficou!!! Nojentos.
 
Se não se discute a Pátria, discute-se o quê?
O sexo dos anjos??
 
O gozo da escrita! Seu e meu que me deliciei a ler.
É evidente que o nosso personagem foi rápidamente comprar uns óculos escuros, a uma qualquer
"multiópticas", se bem que, isto está a ficar cada vez mais "plumbeo"...
Um abraço
 
Gosto muito, muito de o ler!
 
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