2005-05-18

 

"PIANO MAN"

Uma estória estranha ocupa a imprensa britânica.
No dia 7 de Abril, um homem, bem vestido, foi encontrado a vaguear pela praia em Medway. Nada de especial não fora o facto de se encontrar completamente encharcado e desorientado. Levado de imediato para o hospital, desde então não disse uma palavra, esconde-se, exibindo uma timidez fora do comum. Um destes dias, uma enfermeira entregou-lhe um bloco de apontamentos, na esperança de um contacto, de um sinal. O homem pegou no bloco, na caneta, começou a desenhar lentamente os contornos de um piano, ao fim de poucos minutos estava ali representado o instrumento da sua libertação. Um médico, impressionado pela exactidão, pela beleza do desenho, levou-o pela mão, sentou-o ao piano. Durante duas horas, aquele estranho e silencioso homem foi outro. Transportado para o seu mundo, fez das teclas as suas cordas vocais, durante minutos falou pela música, na ponta dos dedos a sua eloquência, exibindo uma destreza e uma qualidade raras.
No final, remeteu-se novamente ao silêncio, ao seu silêncio.
Há dias que os jornais e as televisões mostram a sua fotografia, uma linha telefónica especial for criada, na expectativa de identificar o homem que enigmaticamente é identificado como o "piano man". Até ao momento, ninguém foi capaz de explicar quem é, o que fez, de onde veio.
Nestes tempos de permanente vigilância, nestes tempos de câmaras em todo o lado, de telemóveis, vias verdes, cartões de crédito, tudo passivel de reconstruir o rasto de qualquer mortal, eis o homem que resiste silenciosamente (involuntariamente), eis o homem que chega de lado nenhum.
Há nesta estória o mistério da diferença, a suspensão da realidade. Há nesta estória uma convocatória para os nossos dramas e misérias colectivos, trazendo-nos para a amada pátria, que ao contrário do "piano man" sabe bem de onde vem, sabe bem quais as suas raízes. Todavia, todos nós enquanto nação, partilhamos com aquele homem um pedaço do surreal: estamos todos (atarefadíssimos), sentados à espera de Godot...

Comentários:
Uma história que me tem prendido ás noticias. Não fosse tão trágico ele estar psicológicamente como está e seria uma linda história. (creio que já foi identificado como sendo um cidadão Polaco, mas não tenho certeza do que afirmo.).Parabéns pela sensibilidade que demonstra nestes pedacinhos que nos vai (e onde se vai) revelando.
 
Notável a forma como nos arranca à notícia para nos confrontar com o nosso drama colectivo.
Um abraço
 
Brilhante, caro LS! Pegar nesta notícia e transpô-la, por contraponto, à nossa vivência nacional foi de mestre. E subscrevo, em particular, o último período, que não resisto a transcrever:

"Todavia, todos nós enquanto nação, partilhamos com aquele homem um pedaço do surreal: estamos todos (atarefadíssimos), sentados à espera de Godot..."
 
Exactamente. De facto, estamos como o dilencioso homem do piano sonoro. Estamos à "espera do comboio na paragem do autocarro" como diz o grande Sérgio Godinho.
 
"nomínimo", um site brasileiro, avança várias hipóteses, desde uma campanha de marketing para roupa (a do homem não tem etiquetas) até ao lançamento do músico internacionalmente. Vale a pena ler...
(lusofolia)
 
Admirável a maneira como nos transporta da parte para o todo que nós somos, muitas vezes parados,em desespero de encontrar as etiquetas da memória. Um abraço
 
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