2005-06-08

 

O QUE AÍ VEM

Quem observe o novo governo francês percebe que há ali um verdadeiro saco de gatos. Não é difícil compreender que a mistura explosiva de personalidades terá poucas hipóteses de longevidade.
É, pois, revelador que o senhor Sarkozy (um dos mais ambiciosos políticos franceses) tenha aceite fazer parte deste estranho elenco. Sarkozy veio à procura de palco, veio exibir os seus dotes, veio dar corpo aos dons freneticamente indicados na sua biografia hagiográfica: "é hiperactivo, ambicioso, muito trabalhador, nunca descansa" anunciada como verdadeira cartilha do marialva (mais um homem sem sono).
Detendo a pasta do Interior não se cansou de avisar “vou ser patrão dos que fazem actualmente inquéritos sobre mim. Há pessoas que vão dormir muito mal a partir de agora”. A frase é de uma frieza cortante e vale como declaração de principios (ou da falta deles). Já antes tinha publicitado uma guerra intransigente ao crime e... claro (ou sobretudo), ao grande pesadelo: a imigração!
Sarkozy percebeu que a criação do político intransigente, autoritário, implacável, é popular. Percebeu que há mercado para o político “buldozer”. Estará no Governo explorando os limites deste papel aproveitando, entretanto, para efectuar “limpezas” cirurgicas, saindo em seguida para dar corpo à estratégia pessoal que fomenta há muito.
Ante os nossos olhos desenvolve-se, assim, um protótipo do que serão os “novos líderes europeus”, propondo doses excessivas de “autoridade” e de “afirmação” com tiques de xenofobia, fazendo uso do clássico "inimigo externo" - que será inicialmente corporizado pelos imigrantes, concentrar-se-á depois nos muçulmanos, nos turcos, acabando no vizinho.
O impasse que, entretanto, a Europa está a conhecer em termos políticos, assim como as dificuldades económicas e o desemprego crescente, ajudarão a criar o caldo feito ninho destes estranhos e duros líderes que tomarão o poder paulatinamente nos próximos anos, um pouco por toda a Europa.
Mais tarde talvez muitos se interrogarão como foi possivel gerar estas criaturas, talvez então já seja tarde de mais.

Comentários:
Vem em França e provavelmente na Alemanha pós Schröder, Por isso é que o "não" é capaz de não ter sido assim tão mau. Digo eu, que espero para ver.
Abraço bom fim de semana
 
Bem a propósito, cá em Portugal temos o PM actual também de mão dura. Li aqui há uns tempos que Miterrand já no final da sua carreira interrogava-se porque razão o choque tecnológico não resultou, as novas máquinas deviam libertar mais tempo para o homem ter um trabalho mais de acordo com as suas capacidades. Ao contrário se antes tinhamos os desempregados hoje temos os excluídos. Continuamos sem aprender ou sem saber passar a verdadeira experiência do conhecimento, isto porque já na revolução industrial tinha existido uma alteração na sociedade menos agricola, mais industrial. A dureza da política em França advém de uma realidade há muito teoricamente conhecida mas em conhecimento e na prática mal absorvida. As políticas de emigração são fundamentais, isto porque qualquer pessoa fora da europa comunitária olha de fora como se estivesse a ver um el dorado. Em Paris e mesmo em França o número de imigrantes é de tal forma que a aculturação já existe, todos nós conhecemos as influências Islâmicas em França. A pergunta é até que ponto é importante manter os valores do nacionalismo de cada país ? A língua, a cultura e todo o passado histórico valem quanto ?
Será o futuro um mundo onde a mistura de culturas e raças vai se sobrepôr ao nacionalismo de cada país ?
O que é um americano ?
Ser Europeu será mais importante do que ser francês, inglês ou português?
A resposta será sobretudo do ponto de vista económico, infelizmente ...
Já me alonguei.
Vejo que você escreve muito bem e que gosta de polítca e estratégia nacional e internacional, aqui fica um link que já deve conhecer http://www.diplo.com.br/
Até breve e bom fds.
 
Há algum tempo que venho lendo este Abnegado, via A FOZ, e hoje deu-me para comentar: boa análise, lucidez, boa escrita.
Obrigado e um abraço.
 
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