2005-08-27

 

EM NOME DA "OBRA"

As graves denúncias efectuadas pelo senhor Paulo Morais, na entrevista à revista Visão, foram recebidas pelo país com o costumado e secular desdém pela “temática”.
Pouco importa que o ainda vice-presidente da câmara municipal do Porto tenha nomeado algumas da endémicas chagas do “poder local”. A coisa arrumou-se célere com uma notícia anunciando um inquérito a efectuar (oportunamente) pelo Ministério Público, rematada com declarações do inefável (e ofendido) senhor Ruas - representante maior dos autarcas - para quem tudo se resume a uma birra do senhor Morais.
Não é de estranhar este olímpico desprezo num país que gerou, com desvelo, criaturas como os Torres, as Fátimas e os Jardins e os celebra.
Num povo que se habituou a referir o Estado pela etérea expressão “eles”, esquecendo por completo a primeira pessoa do plural, as “ousadias” são muitas vezes interpretadas como expressão da “iniciativa”. O envilecimento da actividade pública não desperta grandes paixões, entendendo-se que “ninguém é prejudicado”. Verdadeiramente poucos se escandalizam com a corrupção, sempre desculpada em função de um misterioso método comum que “todos fariam no seu lugar”, vista como algo natural e até aceitável se devidamente escudada na proverbial “capacidade de fazer obra”.
E a “obra” foi consolidada. Ao longo de décadas transformámos, afincadamente, muitas vilas e cidades em clones da Brandôa. Ao longo de décadas, plantámos vistosas rotundas e avulsas obras de decoração urbana, estranhamente iguais de norte a sul, com profusão de estruturas em aço inoxidável (muito moderno) e plásticos vistosos. Ao longo de décadas construímos prédios de habitação dotados de engenhosas partilhas de intimidade tal a qualidade dos materiais. Ao longo de décadas permitimos que o betão invadisse todas as parcelas disponíveis de terreno, construíndo muito para além das necessidades. Ao longo de décadas assistimos ao pato-bravismo em roda livre.
Com naturalidade, e em nome da “obra”, muitas autarquias gastaram sobretudo o que não tinham, endividando as gerações vindouras. Com naturalidade, criámos diversas estruturas assombrosas, pesadas, ineficazes, com nós (apertados). Com naturalidade erigimos muitos edis à condição de poderosos caciques.
Evidentemente piorámos a nossa qualidade de vida. Evidentemente esbanjámos dinheiro e oportunidades. Evidentemente pagámos (pagamos) caro os desmandos que desculpamos e aceitamos.
O entusiasmo, o empenho, na reeleição e defesa dos responsáveis pelas “obras” da nossa vergonha garante a eternização dos mais torpes hábitos, oculta o trabalho sério e probo de muitos autarcas.


P.S. Informa a edição de hoje do jornal Público que o vereador será ouvido pelo Ministério Público na próxima terça-feira. Aguardemos (com paciência) os resultados do inquérito...

Comentários:
Meu Caro Luis,
Não podia estar mais de acordo com o que escreveu.
Repare neste diálogo patético que escutei algures numa sala de espera de um consultório aqui do burgo:

-O tipo roubou muito, é certo, mas fez obra e os outros nós não sabemos.
-Tens razão! antes isso do que ser sério mas não fazer nada.

Assim é muito dificil. Com munícipes destes. E olhe que são muitos.
Um abraço
 
Completamente de acordo e o comentário do JRD é esclarecedor.
Esses meninos só falam quando perdem o empregozito... até lá é um fartar vilanagem.
 
Isto só lá vai quando a pena para o não cumprimento das promessas, os roubos, o tráfico de influências e o despesismo fôr punido por lei com mão de ferro e superior a dez anos. Quando forem para lá, já sabem com o que contam!
Fartava-me de rir.
 
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