2005-09-08

 

A IMPLOSÃO E A MISÉRIA DE ESPÍRITO

Neste dia, nesta quinta-feira, as televisões julgaram ter feito parar o mundo. Nas salas de direcção de todos os lusos canais, Suas Excelências decretaram solenemente: o universo cessará a sua actividade, concentrar-se-á na península de Tróia. E o primeiro-ministro acreditou, e os ministros, e os dignitários, e muitos, e as gentes, acorrendo à festa da poeira.
Os directos, programação interrompida, câmaras várias, helicópteros captando o ângulo perfeito.
Nos telejornais, a “explicação”, o detalhe do excitante explosivo, os “jornalistas” descobrindo não ter havido coincidência perfeita entre o gesto do senhor primeiro-ministro e o grande momento, vejamos as imagens: exactamente, caramba!
Os “repórteres” no centro da acção, filmando, ouvindo. A senhora no terraço estava triste, logo ela que fez parte do júri das misses. E as misses de saia, de calça, com óculos e sem óculos. E a festa que se antecipou para permitir “visualizar” o grande momento. E a anciã indignada, pois que os outros vinham de fora e já tinham binóculos, e ela ali sem nada, não há justiça. Não há, de facto, mas há coiratos, e multidão, e um toldo para proteger o sol.
E lá na península, os ministros e o primeiro, os defensores do ambiente, e o senhor Presidente? Onde está o senhor Presidente? Esqueceram-se de o convidar, óh valha-me Deus, que ainda ficamos sem medalhas para a gajada dos explosivos, caraças!
E os apresentadores nos estúdios, curiosos, com vontade de sair, de acompanhar o grande momento, olha lá, como está o ambiente aí? E ela, e ele, que respondem, está magnifico, só gente gira, e o zeze camarinha, convencendo uma donzela (gaja boa como diria no seu charmoso parlar), explicando que aquilo ali, a "ceninha" das implosões, era brincadeira de crianças comparado com o seu saber. Chegava já a lili vinda da outra banda, à sorrelfa, que houve menino que não lhe fez chegar o convite, trazia, enrolada debaixo do braço, uma cadelinha (um amor). A bicha, aflita com a falta de atenção, não foi de modas, lançando uma mijinha projectada que haveria de decorar o pezinho mimoso do convidado da banca. O vigésimo quinto assessor ministerial, na pressa de conseguir um contacto, tropeçando num dos milhentos cabos espalhados pelo chão, teve apenas tempo de se agarrar a uma câmara de tv, logo aquela que estava em directo, e o homem que a segurava, em desequilíbrio, o apoio procurado, a lente em bolandas entrando pela saia da senhora fina, o país partilhando a renda imaculada.
Vinha já o Avelino, distribuindo electrodomésticos, convidando para a implosão maior lá por Amarante “não tarda nada”. As rodas a chiar, anunciando pressas tremendas, descobrindo o major que ajeitava os cabelos “raios me partam se faltava a esta cerimónia, catano”. Alguém angustiado, mãozinha no peito, não queria acreditar que o Scolari estivesse atrasado, estava demorado, explicavam-lhe, pois que não é fácil chegar à península escoltado por traineiras, cavalos, carros, motas e bicicletas, “eles andam aí atrás do homem desde o Euro”. Coitado, desabafava, o do fatinho. Qual deles, perguntava o outro “anda tudo engravatadinho aqui, meu menino”.
E os realizadores na régie, ordenando “aguenta, que ainda só levamos quinze minutos, dá-lhe gás”. E ele que lhe dava, efectivamente, gás - já se sabe, comidas pesadas… E ele que perguntava ao “homem no local”: correu tudo bem, não foi? O outro que lhe respondia, ainda extasiado: coisa "mai" linda!
E o país a inchar de orgulho, virando-se para a “patroa”, vê lá tu Cremilde, se há alguma terra com esta categoria.
E a TVI que desiste ao final de 16 minutos, continuam as outras. É já a SIC que termina ao fim dos vinte minutos. Fica a nossa, de todos, que se mantém no seu posto, exercitando o “serviço público” por mais cinco minutinhos.
O pagode, oficioso e oficial, já nas comezainas. A malta contente, delirante, “parecia a feijoada da ponte, pá!”.
E o país que definha, que implode, que desiste, percebendo que numa quinta-feira, nesta quinta-feira, expusemos ao sol, em Tróia, a nossa miséria de espírito.

Comentários:
É o pior de todos nós naexibição da mais desgraçada parolíce. Triste. Triste e miserável.
Bom comentário, Luis.
 
É o pior de todos nós naexibição da mais desgraçada parolíce. Triste. Triste e miserável.
Bom comentário, Luis.
 
Este é sem duvida um dos meus blogs de referência.
 
Meu caro Luis,parabéns por este fresco, este "piquenique dos Avelinos" com que asperge a mais pungente saloiice e o cheirinho de fritos que se nos pegou à fatiota, postados do lado de cá do pum!, do lado mirone, ensetubalados em binóculos. O mais perverso é que, para a maior parte dos basbaques, para a maior parte de nós, Tróia ficou, desde agora, mais longe, mais areal de finórios, inacessível. Aquela multidão de binóculos está já no lugar que lhe cabe, vendo de longe, do mesmo modo que "vai" às festas dos "famosos" folheando revistas cor-de-rosa...
 
Excelente post. diz tudo sobre o país e o povo!

Pequenino, miserável, só queremos foguetório, se não houver foguetes sirva-se uma implosãozita que também faz barulho e levante poeira.

E depois admiramo-nos da descida de lugares na lista de países mais ricos. Ontem quantos milhares de "trabalhadores" pararam para ver o Big Show Belmiro?
 
Diz muito bem!"...expusemos ao sol, em Tróia, a nossa miséria de espírito"!!!
Notável, este seu texto!
 
Magnifico meu caro Luis.
Que fina ironia. Só que esta gentinha (são sempre os mesmos) que se conviada a ela propria alternadamente, merece mesmo outro tipo de linguagem.
 
O Primeiro Ministro ganhou-lhe o gosto... Prepara-se para detonar o país!
 
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