2005-09-21

 

O RETRATO DO PAÍS QUE SOMOS

A senhora D. Fátima decidiu pôr cobro à sua despudorada fuga, usufruindo uma oportuna imunidade, para se dedicar comodamente à sua campanha.
Deixando, por ora, a análise em torno da bondade do legislador, este episódio garante apenas a continuação da imensa farsa em que teimamos transformar este Portugal sofrido que somos.
O simples facto de coleccionarmos candidatos com sérios problemas judiciais, já por si diz muito acerca da total ausência de ética e dignidade destes senhores e senhoras. Mas, o que traça, indelevelmente, o retrato de um povo, de um país, é o apoio maioritário que a população aparenta oferecer a estes candidatos.
Perguntar-se-á porquê. Estarão todos dotados de uma espécie de magia encantatória, terão sido responsáveis por “obras” tão destacadas e meritórias, terão contribuído de tal forma para a melhoria das condições de vida das gentes, que mereçam esta demencial dedicação?
Receio bem que a resposta seja mais simples, ainda que preocupante.
A nossa sociedade aparenta conviver mal com os percursos difíceis, com o rigor e trabalho. A coberto da mítica “capacidade de desenrasque” tentamos convencer-nos que fomos abençoados com dotes extraordinários que nos permitem encontrar sempre o caminho mais fácil. Os generosos (que não desinteressados) “apoios” de Bruxelas ajudaram a confirmar este quadro espantoso de um povo que, subitamente, descobre a quadratura do círculo. Em Portugal, tudo tem um atalho, uma cunha, uma “facilidadezinha”, um envelope, uma espécie de oração: “não há-de ser nada”. Os problemas e dificuldade são “empurrados com a barriga”, esperando uma milagrosa solução, no interim, reinam os “chico-espertos”, aqueles que aparentemente são dotados de uma bússola natural, uma imunidade aos valores e probidade que lhes permite sobressair neste desgraçado lodaçal.
Não surpreende, por isso, a existência destas criaturas, não espanta que se candidatem, não admira que lhes seja perdoado um ou outro “desenrascanço”, tão-pouco os seus putativos resultados eleitorais. Muitos dos seus eleitores projectam nestes candidatos a sua própria imagem, revêem-se neles, não lhes encontram nada de verdadeiramente censurável.
Justamente por isto, não constitui novidade que nos transformemos, progressivamente, num país sempre pronto para “desenrascar” qualquer coisinha, desfigurando-se, convictamente, numa farsa.

Comentários:
Diz-me quem eleges, dir-te-ei quem és.
 
Caro LS
Concordo com esta sua visão da chico-espertice portuguesa, sobretudo por vermos como votámos nas últimas legislativas. sabíamos bem o que esperar dos Gomes, dos Varas, dos Coelhos, dos Carrilhos, mas corremos a elegê-los. Temos o que merecemos, enquanto povo.
 
só neste país acontecem coisas destas.
 
Realmente a pergunta do dia era "mas como é que isto é possivel"?


Mas não defendo a corrente do "isto só em Portugal". A minha tese é "também em Portugal".
 
Realmente o caso merece estudo! Não é uma caracterísitica nacional. Estamos entre a Guiné Bissau e a Escandinávia.
 
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