2005-11-16

 
Abnegado - 1º Aniversário - Textos do Baú

17 Abril 2005


Tinha passado a manhã observando as estantes com os seus livros. Detivera-se na leitura daqueles tomos com as ideias que em tempos o haviam conquistado. Quase a medo releu os seus próprios comentários escritos em estilo deslumbrado. Parecia-lhe tão estranho rever-se naquela caligrafia.
Agarrado às notas vindas de um tempo outro, foi recordando os contornos exactos da sua ilusão. Naqueles dias dizia conhecer as regras da Economia. Não tinha dúvidas: sabia que o Estado era uma criação demoníaca e inútil, divertia-se com os jogos de palavras. Sentia tão seguras as suas convicções, tão fortes as suas certezas, que gostava de discutir a privatização da sociedade, assim mesmo, sem excepções. A pobreza, defendia, não existia como tal, apenas a demonstração da preguiça, da ausência de vontade. Naqueles dias gabava-se de não ter, jamais, conhecido um argumento capaz de alterar as suas ideias.
Sentia ter descoberto o seu confortável espaço num mundo previsível, que julgava compreender, exercitando a euforia na redoma que tinha desenhado para si, numa abstracção de tudo à sua volta.
E de repente, as palpitações, a revolta surda, como se uma luta entre o verso e o reverso de si próprio. Sabia hoje que tinha de guardar a fera selvagem em que a sua memória se tinha transformado. Todas aquelas recordações sacudiam-no violentamente, traziam a frieza da lâmina, envergonhavam-no.
Afastava, com firmeza, a torrente de reminiscências do passado, não podia deixar que o desalento se instalasse. Tinha bem presente as indicações do médico: a bomba-relógio que o consumia podia facilmente descontrolar-se sem o apertado domínio de uma alma desperta e combativa.
Aquela era uma guerra que não queria, nem podia perder.
Restava-lhe a esperança de encontrar uma solução para o enigma em que se tinha transformado a sua vida, numa espécie de equação com tantas variáveis e incógnitas que subitamente não aceita uma fórmula resolvente.
E os cálculos, as contas, que o consumiam.
Conhece agora os limites da reduzida receita familiar, apertado na subtracção do custo brutal dos seus tratamentos, agora que não pode mais trabalhar e não por preguiça, e não por falta de vontade.
Veja-se que se prepara para vestir a sua camisola branca com as palavras de ordem ensaiadas na véspera com os colegas: “não aos abonos de miséria”. Está já a ser revistado pelo agente de autoridade - responsável zeloso pela segurança do hemiciclo. Ali participará na manifestação silenciosa. Ali estará durante os trabalhos vespertinos da Assembleia.
Será tomado pela vontade de gritar a todos que conhece os meses de 10 dias, que sabe bem a dor de ter um prato de esparguete para almoço e jantar de toda a família. Gritar que conhece casos desesperados, gritar que existem 2 milhões como ele, gritar que há 300.000 pessoas com fome, gritar que não quer viver num país que desconhece o significado da palavra solidariedade. Dizer a todos como é ténue a linha que separa o orgulho da vergonha. Fazer ver como se pode abrir tão facilmente um alçapão debaixo dos pés.
Acabará por silenciar a vontade de partilhar a sua miséria, acabará por impedir-se de contar o seu inferno. Sabe bem que já ganhou invisibilidade, sabe bem que a sua é já uma história impossível, sabe bem que traz agarrada à pele a vida que ninguém quer ver.
Sabe-o bem, já foi assim.

Comentários:
há mais ou menos quatro meses (em 9 de setembro passado) tive o prazer de fazer um link para este post
 
Boa-noite Luís,
com imperdoável atraso aqui lhe deixo os meus parabéns, e o desejo de o poder continuar a ler muitos mais anos. Um abraço. Pedro
 
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