2005-11-22

 

ESTÓRIAS DO QUOTIDIANO (III)

Esteve sentado no banco do jardim todo o dia. Há meses que tinha aquela ideia: manter-se em silêncio, sem trocar uma única palavra, esgotar até ao limite a falta de comunicação.
Ainda lhe parecia singular que ninguém tivesse estranhado a sua esfíngica e taciturna ausência presente. Ali esteve, calado, à conversa de manhã à noite.
Pela fresquinha, chegara a senhora de idade avançada, eléctrica, parecendo esgotar numa torrente frenética de palavras as conversas que tivesse acumulado durante anos. Pareceu-lhe escutar vagamente descrições de vidas perdidas, gatos e outras companhias domésticas, mortes e solidão, numa interminável ladaínha gerada pela anciã como se desejasse libertar-se de um peso palavroso. A senhora confortou-se com aquela alma caridosa ali a seu lado, emocionou-se com a sua compreensão, despediu-se, agradecida, prometendo rezar por aquele que a tinha ouvido.
Logo se sentaria o homem ainda novo, colérico, indignado com uma entidade vaga, com um grupo indefinido de malfeitores. Esticava o dedo indicador varrendo o horizonte explicando as inadmissíveis patifarias. Concluía, cada frase, cada argumento, interrogando "você não acha?", confirmando, ele próprio, de seguida "pois com certeza". Tantos foram os desabafos, tantas as confirmações, que ao homem lhe parecera ter ali nascido uma amizade. Levantou-se, reconhecido, abraçando aquela alma gémea que em silêncio lhe havia dado o conforto do seu apoio, garantindo: "tivesse o mundo mais gente como o senhor!".
Chegada a hora do almoço, chegados os quadros enquadrados nos seus fatos cinzentos. Tomaram assento, partilhando, animados, os casos do dia, as conversas do escritório, integrando-o já nas charlas, rindo com ele que no seu silêncio imóvel partilhava uma improvável galhofa; "aqui este amigo é que a sabe toda!" piscando-lhe um olho cúmplice, garantindo a necessidade de repetirem tais convívios com aquele que se sentava, sem palavra, no meio deles.
E outros que se seguiram, desfilando no palco do personagem de interminável mudez.
Era já noite quando, por fim, se levantou fugindo àquele insuportável silêncio. Partiria sem saber da fama que se espalhou, incendiando um rastilho pela cidade, criando um mito: um homem santo, esteve sentado num banco do jardim, um homem sem um erro, sem uma falha, um homem que seria a nossa salvação se lhe puséssemos o nosso destino na mão.

Comentários:
"O calado é o melhor..."
Um abraço
 
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