2005-04-11

 

CONHECIMENTO DO INFERNO (IV)

Naquele dia, estranhamente, não cumpriu o seu ritual da manhã. Por uma vez, decidiu não procurar na janela a imagem percebida do dia lá fora. Talvez por adivinhar na claridade que iluminava o quarto, o anúncio de um dia radioso, aqueles que os locutores radiofónicos tanto gostavam de dizer convidativos para um passeio ou uma ida à praia.
Talvez o dia fosse mais penoso, cumpria-se um aniversário. Há seis anos, que aquela cama o prendia, há seis anos que o seu horizonte se limitava àquele quarto, há seis anos que a sua liberdade se jogava somente no pensamento, cansado de viagens imaginadas, de sonhos alados, proibidos pela dura realidade.
Tinha já dificuldade em recordar a sua vida antes daquele acidente.
Tantas vezes se tinha queixado da falta de tempo, da ausência de oportunidade para “ouvir a sua voz interior” como gostava de dizer, repetindo a frase lida num desses livros de cordel. Estranha ironia, pensava agora, já tão farto de ouvir a sua insuportável voz interior, tão farto dos tempos infinitos de conversa intíma consigo próprio.
Ali estava, arrastando a sua existência em dias dormentes.
Parecia-lhe inverosímil que já tivesse alimentado tantas esperanças, tantos projectos de vida. Parecia-lhe absurdo que há exactamente seis anos fosse apontado como uma séria opção para a administração da empresa a que dedicava o melhor do seu tempo. Parecia-lhe inacreditável que há seis anos ouvisse com frequência que tinha a vida toda à sua frente e um futuro brilhante. Como se a vida não fosse uma construção de areia, uma soma de ilusões, uma sucessão improvável de hipóteses.
Talvez hoje receba a visita de alguma senhora, daquelas vestidas com uma bata amarela - voluntárias, parecia-lhe. Afinal, as suas únicas companhias agora que os pais já tinham partido. Os muitos amigos foram perdendo o hábito de tomar o caminho do Lar onde encontrou o seu lar. Desculpava-os com o tempo, que sabemo-lo bem, é escasso. O mesmo tempo que vai apagando os afectos, impondo o esquecimento.
Já tinha perdido a sensação de tristeza, a melancolia quando se torna crónica perde a densidade, não se dá por ela, instala-se, domina, não deixa espaço para outro sentimento.
A recordação difusa daquele dia chegava já sem emoção, sem raiva, os minutos que lhe roubaram uma vida, que lhe emprestaram uma existência penosa. Aquela estúpida ilusão de imortalidade, conquistada à força de repetidos exercícios de condução no limite, empurrou-o para aquele quarto, atirou-o pela ravina dentro da amálgama de ferros contorcidos que resultaria do descontrolo eufórico do volante.
Sentia o pensamento definhar, enclausurado num corpo tolhido, espécie de cápsula doentia da sua solitária prisão. Não havia mais sofrimento possivel. Ali preso à cama, num desespero silencioso, tinha adquirido o conhecimento do inferno.

Comentários:
Continuo a gostar de ler o que escreves. Este é, na minha opinião, o maior inferno sobre o qual já aqui escreveste. Um abraço "salvífico".
 
Somos demasiado pequeninos e damo-nos demasiada importancia, quando num segundo apenas, o destino, a vida, tudo nos pode tirar. É importante (muito!) estes "incomodar" consciências. Apesar de uma grande maioria não conseguir ler com os olhos do coração como gosto de lhes chamar. Os olhos da sensibilidade, da solidariedade. Há coisas tão importantes e quem as defende é muitas vezes rotulado de "fraco, sonhador,etc". Vivemos num mundo demasiado virado para o próprio umbigo, um mundo é que o importante é o que se vê, o material. Mas nascemos todos nus não é? E só vamos deste mundo vestidos porque alguem nos coloca roupa. O sangue, a lagrima, o riso, não é igual em todos os homens? Sabe eu ainda devo ser daquelas a que chamam sonhadoras. Ainda acredito nas pessoas, num mundo melhor, mais justo, mais SOLIDARIO!
 
Ainda...
 
Também deste inferno nos chegam sinais todos os dias e no entanto o nosso contributo é ... "esquecer depressa"!
 
É de novo a dolorosa realidade ficcionada. A de ontem, a que está aí neste momento, e mais logo e amanhã. Inexoravelmente, tragicamente, pateticamente.
 
Gostei muito deste conto, da forma como aborda a fragilidade da nossa autonomia reveste-de uma "humanidade" fabulosa. Tentamos
fantasiar, pensar numa existência que obedeça a um sentido, como se de uma narrativa se tratasse mas tropeçamos em cada passo no absurdo dos passos não previstos.
Foi um prazer conhecer este blog.
 
Esse que não sente a luz do dia na sua maior amplitude quando se sai à rua... está certamente preso a um dia enevoado.Mas, talvez mesmo esses dias não sejam desesperados no limite... mas, isto são divagações que não acalmam dores...
 
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